Preço que a vida cobra

mar 25, 2020 | Texto de Dorval Tessari | 0 Comentários
Preço que a vida cobra

Diário de um confinamento #6

O preço que a vida cobra

Quando morei no Rio de Janeiro, por quatro anos, por ocasião do final da minha formação médica, em decorrência das dificuldades financeiras que eu tinha, criei alguns hábitos que mantenho até hoje. Um deles é de ler jornal.

Naquela época eu estudava no Instituto de Ginecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição reconhecida no mundo acadêmico. Recebia um ensino de primeira mas nenhuma remuneração. Para meu sustento, alem daquilo que meus pais podiam me dar, eu trabalhava no subúrbio do Rio: Senador Câmara. Olha, não era fácil chegar lá. Pegava um ônibus do lugar que morava até a estação Central do Brasil, de onde partem os trens para o subúrbio. De lá, por trem, uma hora de viagem. Desembarcava no meio de uma favela. Sabes aquelas imagens que se vê na televisão que tem as comunidades ao redor dos trilhos de trem? Sim, era isso aí. Ficava o dia todo trabalhando. O fim do dia era um premio para ter suportado aquele trabalho.

Nos domingos, eu acordava cedo e ia para a Praia do Flamengo caminhar e depois do meu exercício, comprava o exemplar do Jornal do Brasil. Ainda hoje, recordo-me da textura dele, do cheiro de tinta e do grande tamanho dele. Um jornal do tamanho do Brasil. Era maravilhoso. Trazia matérias de politica, economia, turismo, cotidiano, lazer, artes, letras, opinião... Sentava no gramado, em cima dos meus tênis e passava horas, ali, embaixo do sol, lendo e degustando aquelas matérias. Por volta do meio dia, ia para minha casa e me preparava para ir almoçar .

O dinheiro era escasso...

Ao meio dia, ia para o bairro da Cinelândia, centro do Rio. Lá entre os cinemas, havia um restaurante que servia um prato com peixe, arroz, tomate, e batata frita no estilo “prato feito”. O luxo era tomar um copo de vinho em uma caneca de porcelana. Lá, sozinho, fazia reflexões sobre a minha vida e a perspectiva que eu tinha para mim. As 13:50 eu saía do restaurante e ia para um dos cinemas ao redor. Por ser no centro da cidade, os preços era muito baixos. Essas salas eram frequentadas por prostitutas, gays, pessoas sem recursos financeiros que queriam te acesso ao mundo das artes. E lá estava eu. Terminava as 15:50 e entrava em uma outra sessão. As 17:50, atravessava a rua e assistia o concerto da Orquestra Sinfônica Jovem do Brasil, na sala de cultura Cecilia Meireles. Lá pelas 20:30, ia caminhando para minha casa.

Mesmo com as dificuldades impostas pela vida, sinto saudades daqueles momentos.

Há mais de 26 anos, tenho por hábito ler Jornal, diariamente. Lá atrás, em 1994, eu esperava ansiosamente a chegada do jornaleiro que trazia um exemplar de SP. Ele chegava de avião. No final dos anos 90, inicio de 2000, ocorreu um boom dos Jornais no Brasil. Aqui, Zero hora; em São Paulo, O Estado e a Folha de São Paulo; no Rio, O Globo; em Brasilia, o Correio Brasiliense. Certamente, esses sao uns de tantos outros que cresceram. Traziam matérias consistentes, reflexivas que permitiam que o leitor tivesse acesso as mais diversas opiniões. 

Há uns dois meses, pensei que nesses anos todos que acesso as informações pelo jornal, as manchetes principais nao mudaram : Um presidente corrupto, outro também; um time campeão nacional em um ano, o outro em um outro ano; crises financeiras, guerras, eleições;  descoberta da cura do câncer, da depressão; mudança da forma de comunicação do radio para TV, da Tv para a internet, da internet para lugar nenhum; das lembranças dos telefones fixos e com eles das extensões sem-fim pelos chãos da casa para dar mobilidade e conforto. Enfim, um mundo que não existe mais a não ser em nossas lembranças.

Aí, vem uma manchete nova, a COVID-19  para mandar a humanidade.
E mais uma vez, estamos errando no alvo: o nosso inimigo não é o vírus e sim a falta de humanidade que assola nossos corações.

Nenhum comentário até o momento.

Enviar comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *