Não adianta espernear: a vida não será como antes

mar 28, 2020 | Texto de Dorval Tessari | 0 Comentários
Não adianta espernear: a vida não será como antes

Não adianta espernear : A vida não será como era antes.

Lembro-me da minha segunda viagem que fiz para a Europa, em 2006, quando embarquei de Porto Alegre  com destino a Madri, com conexão nos aeroportos de Guarulhos, em São Paulo, e no aeroporto de Heathrow, em Londres. O embarque na cidade de Porto Alegre foi festivo, afinal, a Claudia e eu tínhamos tomado a decisão que iriamos gastar nosso dinheiro viajando a continuar gastando “rios” de dinheiro fazendo filhos em laboratório. Eram nossas primeiros férias pós “ tentativas de fazer filhos”. Estávamos livres, leves e soltos...

Ao chegar em Guarulhos, nos dirigimos ao balcão de embarque da British Airways, onde fomos muito bem atendidos. Trocamos os nossos bilhetes e recebemos um folheto explicativo do aeroporto de Heathrow. Naquele momento meu suplicio comecou. Acontece que esse aeroporto tem duas pistas paralelas junto com cinco terminais de passageiros, e o deslocamento entre esses terminais se faz pequenos trens. Imagine a confusão. Os aviões tinham controladores de voo e eu somente um pedaço de papel como orientação. 

Não saiu mais da minha cabeça aquele folheto explicativo junto com a voz daquela mulher dizendo que eu desembarcaria em um terminal e que eu deveria pegar um trem para outro. Meu cérebro entrou em colapso. Durante o voo, de São Paulo a Londres , passei olhando para aquele maldito folheto e pensando “como eu vou fazer isso”.

Não preciso dizer que minha noite foi um inferno.

Chegamos no terminal indicado e quando foi permitido o desembarque, mesmo que os corredores e saguões fossem devidamente sinalizados, eu me comportei como manada. Eu ia aonde o fluxo me conduzia. Chegamos a imigração e finalmente, a Europa. Tomei o folheto explicativo e mesmo com tudo devidamente explicado, eu não conseguia raciocinar; eu lia e não compreendia; eu via as setas e não processava as informações. Depois de tanto bater perna naquele aeroporto, subi uma escada e parei em uma sala VIP da empresa aérea Iberia. Ao entrar, falei com meu espanhol tipo “Fernando Collor “: Ëu estou perdido e preciso embarcar para Madri em uma avião da sua empresa”. E ela, vendo o meu sofrimento estampado no rosto me respondeu “ É no portão aqui embaixo. Eu os convido para ficar na sala até o embarque”. Agradeci imensamente e pude desfrutar daquele lugar até a hora da partida do meu voo.

Eu trago essa historia para exemplificar como os nossos cérebros funcionam e que estamos vivendo, especialmente não Brasil, uma cegueira das evidencias cientificas tanto quanto eu me ceguei para as placas de sinalização naquele aeroporto.

Esta instalada uma crise sanitária sem precedentes na historia da humanidade e para agravar, o Brasil está acéfalo com um mandatário máximo na hierarquia politica que despreza as orientações que a ciência preconiza. O Imperial Colege de Londres avaliou cinco cenários possíveis para o Brasil e aponta que a reclusão total é a melhor forma de previnir um número elevado de mortes em comparação a nenhuma intervenção. Para exemplificar,  o prefeito da cidade de Milão , na Itália, em uma entrevista a uma emissora de televisão italiana admitiu o erro em não ter aconselhado o isolamento social.

O Presidente da República aconselha o isolamento parcial sem nenhum embasamento técnico disponível na literatura médica mundial. A revista científica britânica Lancet, faz uma critica veemente no editorial dessa semana a atitudes de lideres governamentais, citando textualmente Jair Bolsonaro, que não tratam com seriedade a ameaça pela COVID-19. Continua em seu editorial “as respostas lentas de confinamento como Reino Unido, EUA, e Suécia parecem ter sido decisões mal tomadas”.

Dessa forma, devemos selecionar as fontes de informações as quais devemos confiar. Faço comparações entre os principais jornais de circulação no Brasil, dou credibilidade a profissionais que representam entidades de classes médicas em detrimento a profissionais isolados.

Estamos escolhendo, minuto-a-minuto, qual o caminho que iremos trilhar. Que cada um escolha o que achar melhor para si, sabendo que as decisões pessoais irão repercutir em toda a sociedade, assumindo o risco por elas. A ciência é a única sinalização que nos mostra o melhor caminho a seguir nesse momento tão nebuloso quanto estamos vivendo.
#FIQUE EM CASA.

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