Hora de refletir

mar 22, 2020 | | 0 Comentários
Hora de refletir

Diário de um confinamento #3

Sugiro que todos leiam o artigo escrito por Domenico De Masi, sociólogo italiano, publicado na Folha de São Paulo, hoje , dia 22 de março, domingo.
Há muito tenho me perguntado se a revolução ocorrida pelos anos 60 não tenha sido a grande transformadora dos nossos hábito, quando a mulher foi lançada no mercado de trabalho sob o mote “direitos iguais”?  Nasci em 1962 e fui criado pelos meus avós maternos, Dorval e Olívia; tenho belas recordações de minha infância aos seus cuidados. Meu pais trabalhavam: pai, motorista de caminhão; mãe, uma trabalhadora de uma malharia. Cresci ouvindo, principalmente de minha mãe, que não se conseguia nada a não ser pelo trabalho e que ele devia ser seguido a todo o custo. As frases “trabalhe e guarde” “primeiro o dever e depois o lazer” foram inculcadas na minha mente e na do meu irmão. Até os 8 anos não via meus pais durante a semana, a não ser a noite. Eu era cuidado por meus avós.

Até que um dia, estando na casa deles -meus avós-  ouviu um estrondo e corri para ver o que tinha acontecido. Meu avó caído no chão imóvel, vitima de um acidente vascular cerebral. E eu tinha somente 8 anos. Sai correndo , gritando por socorrendo. Era uma noite fria. Em minha mente vem a imagem dele sendo levado pela ambulância, em silencio, com aquelas luzes piscando. Não consigo me lembrar se eu sofri. Acho que recebi tanto amor dos meus avós que eu sabia insconsciente que a partir daquele momento eu não conseguiria mais falar com ele. Se naquele momento eu não chore, agora, ao estar escrevendo isso, lágrimas caem de meus olhos denunciando a saudade que tenho dele. Ele foi um grande avô. Que aonde o vovô Dorval estiver que ele esteja bem.

Impressionante como esse texto esta me mobilizando... Tinha ideia de dar um rumo e ele foi para outro.

Mas retomando: para mim, a ida da mulher para o mercado de trabalho não foi uma conquista feminina mas uma imposição do mercado para aumentar o rendimento familiar para que as famílias comprem cada vez mais. Dessa forma, necessidades são criadas minuto-a-minuto pois se sobrar dinheiro, se tem tempo para pensar e reconfigurar a vida. Necessidades como telefones celulares mais modernos, televisores, viagens, casas cada vez maiores e elegantes sem o mínimo de aconchego, carros potentes, joias, jantares, almoços, presentes materiais, iPads, computadores, conta bancaria cheias de números e nenhum dinheiro palpável... poderia ficar uma semana mostrando as superficialidade. Mas tudo isso tem um preço a ser pago e que cada um avalie o seu valor: o tempo.

Tempo que foi jogado fora ao invés de cuidar dos filhos, tempo que deveria ser nutrido nas relações familiares, tempo que deveria ser utilizado para repousar as energias gastas pelo trabalho necessário. Quanto custa tudo isso?

Agora, ao estar confinado, me dou conta disso. Se quando criança eu era colocado de castigo em um banquinho para pensar, hoje eu recebo de presente esse confinamento para que eu tenha a capacidade de refletir sobre minha vida, sobre minha relação com o trabalho, sobre a relação com minha familia e principalmente sobre a relação comigo mesmo.

Bom domingo a todos nós
Ah! FIQUEM EM CASA.
Por ti, por mim e por todos nós.

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