Diário do confinamento #5

mar 24, 2020 | Texto de Dorval Tessari | 0 Comentários
Diário do confinamento #5

Cenas de um mundo real.

Ontem foi o meu dia de ir ao mercado e na Farmacia para fazer as compras básicas e de medicamentos. Meu pai tem 85 anos; minha mãe 80. Ambos necessitam de cuidados.

Procurei o mercado do meu bairro, Empório Minuano, que diga se passagem, o atendimento é maravilhoso. Além disso, eles disponibilizam a entrega gratuitamente, nas compras acima de R$ 100,00. Lá, nada de mais. Pessoas comprando, funcionários usando mascaras, potes de álcool gel por todas as partes. Tudo conforme tem que ser.

Depois fui a uma farmácia na principal rua de Caxias do Sul. Ao chegar de carro na avenida Julio de Castilhos, levei um susto. Tinha tanta gente-  e isso era 10 horas da manha -  que cheguei a pensar se eu não estaria em véspera de Natal. Pessoas caminhando, pessoas se reunindo como se não houvesse absolutamente nada de anormal acontecendo. Fiquei me perguntando o que poderia ser feito para conscientizar as pessoas da necessidade do isolamento social além daquilo que já esta sendo feito. Aqui, vem a liberdade de escolha de ir ou vir, próprio da democracia, ou o estado impondo a força para as pessoas ficarem em casa. Se uma exclue a outra, os cidadãos não estao aptos a viverem livres. Triste constatação.

Na fila da farmácia, obedecendo a distância mínima entre as pessoas, vi um homem de cabelos brancos. Ele me disse “sou diabético e hipertenso” e logo depois continuou como se ele estivesse lendo minha mente  “minha esposa tem Alzeimer. Tive que deixá-la sozinha para poder vir comprar nossos remédios”. No mesmo momento, meu pensamento que já era acelerado aumentou. Pensei “a vida para algumas pessoas é uma fardo muito pesado, para não dizer uma merda”.  Imediatamente, comparei com a minha vida “Vivo no céu”
.  Na hora de efetuar o pagamento dos medicamentos que comprei , a  atendente  do caixa falou “Dr. eu não sei o que fazer. Preciso trabalhar e meu pai faz hemodiálise no hospital e precisa pegar ônibus para ir e vir. Estou de mãos amarradas”

Duas histórias e um monte de vidas envolvidas. Uns implorando auxilio dos céus para protegerem os seus entes queridos; outros nas ruas desdenhando o sofrimento daqueles que não podem fazer diferente.

Da mesma forma que a prevenção essa na nossa ação conjunta, enquanto sociedade, cada morte provocada pela falta de consciência coletiva, a responsabilidade será dividida entre todos nós.

Por mim, por ti e por nós

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